ANA MARIA COSTA

Coreto

Desafio: escrever um texto que não ultrapasse as 300 palavras, dando continuidade à frase: “Deitei-me na minha cama e quando despertei estava num coreto de uma cidade desconhecida.”

Deitei-me na minha cama e quando despertei estava num coreto de uma cidade desconhecida.

A exuberância da flora refrescava-me o corpo e a alma, o pipilar dos pássaros era um deleite para os meus ouvidos e o brilho das flores comovia o meu coração. “Que jardim deslumbrante!” – pensei, absorvida por aquela deliciosa ambiência.

De mansinho, surgiam daqui e dali pessoas de olhar diligente que comentavam qualquer coisa por entre sorrisos cúmplices. Sentia-me observada como se me conhecessem e esperassem algo de mim, mas eu nada delas sabia, nem tão pouco do sítio onde estava.

Depressa o coreto ficou cercado por uma pequena multidão. Eu era, de facto, o centro das atenções, embora ignorasse o motivo. Uma criança aproximou-se e disse:

– Queremos ouvir-te!

E logo um coro de vozes clamou:

– Canta! Canta! Canta!

Coloquei as mãos no peito, fechei os olhos e comecei a cantar, soltando a voz que eu nunca supus que vivesse dentro de mim. O canto das aves era a minha orquestra e a canção ali concebida revelava-se a mais intensa manifestação de todo o meu sentir, de todo o meu ser. Entreguei-me por inteiro àquele momento e deixei-me envolver pelo carinho e admiração que os olhos, daqueles rostos sem nome, me ofereciam.

Despertei. Demorei um pouco a cair na realidade. Aquele sonho fora um sinal, sabia-o bem. A mensagem era muito clara: apesar de todo o receio e insegurança que sentia, chegara a altura de dar o passo de fé e enfrentar o desconhecido que, apesar de me assustar, podia trazer-me não só gratificações sem fim, mas também o sentimento de missão cumprida.

E foi assim que decidi avançar com o projeto que mudou radicalmente a minha vida.

Ana Costa

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