ANA MARIA COSTA

Ecopontas

Há uns dias, passei em frente ao liceu onde estudei e tive de parar nos semáforos. Em vez de ficar atenta à contagem decrescente para a abertura do sinal, olhei para o parque da cidade, delimitado por um muro de pedra, onde tanta vez me sentei. Imensas memórias daquela época vieram até mim e a melancolia do momento foi interrompida por uma sonora buzina que, além de me fazer aterrar de imediato da rápida visita ao passado, me fez reparar em dois objetos que não eram do “meu tempo”: um Ecopontas e um Papachicletes.

Confesso que, quando os vi, não sabia sequer que nomes aquilo tinha, mas graças à maravilhosa internet, após uma breve pesquisa, eles apareceram, literalmente, na palma da minha mão.

Fiquei a pensar naquilo. Parecia que aqueles dois eram um atentado à magia do lugar, onde nos anos 80/90 nós, jovens estudantes, conversávamos, ríamos, alguns, os mais felizardos (na minha forma de pensar de então) namoravam discretamente, fazíamos revisão da matéria dada para o teste que íamos ter a seguir, preguiçávamos, aproveitávamos os raios de sol… a lista podia continuar, mas não incluía, de certeza, fumar. Isso, naquele tempo, era coisa proibida e, portanto, mais apetecida, daí haver sítios recônditos, onde muitos se aventuravam a experimentar, mas tudo selado por um pacto do silêncio: todos sabiam, no entanto, ninguém dizia nada. Nunca me deu para querer experimentar. Também nunca fui muito de pastilhas, mas naquela altura só havia praticamente as pastilhas Gorila e, de vez em quando lá ia uma, gostava de colecionar os cromos. Não achava piada nenhuma quando os rapazes, sentados atrás de raparigas de cabelo comprido, tinham a brilhante ideia de lhes colar a pastilha na cabeleira. Nunca percebi qual a piada de algo que, a maior parte das vezes, apenas se resolvia com a tesoura.

A matutar nisto, voltei a passar em frente ao liceu. Hora de intervalo. Quase não conseguia ver o Ecopontas nem o Papachicletes, mas eles estavam lá e também muitos jovens. Passei devagarinho e até consegui um lugar de estacionamento que me permitiu observar melhor. Não me pareciam divertidos, com um olhar vago e ombros descaídos, segurando um cigarro como quem exibe um prémio. Entre umas passas e olhadelas no telemóvel, não havia grandes conversas. Perfilados, de gestos quase mecânicos, corpos de adultos precoces nada tinham a ver com as memórias que guardo daqueles mesmos muros. Ouve-se a campainha que obriga ao movimento, lento, porque o professor pode esperar. No meu tempo, também era lento, mas não tanto, havia limites que todos respeitávamos. Os muros ficaram reduzidos a si mesmos. Sem jovens, sem cigarros, sem telemóveis, sem chicletes…

Saí do carro e fui até lá. Sentei-me. Fechei os olhos e pareceu-me ouvir conversas perdidas, emoções daquele tempo em que ali estive tanta e tanta vez. Foi onde dei as minhas primeiras aulas (sem contar as que dera aos bonecos lá de casa). Sempre quis ser professora e naqueles muros deliciava-me a explicar as matérias aos meus colegas. Eram os meus momentos de glória. E agora? O que se vive nestes muros. Questionei o Ecopontas e o Papachicletes, mas eles não me souberam responder. Desconfiei que não quisessem. Creio que são o disfarce aceitável, politicamente correto, ecológico mesmo para dar legitimidade ao cigarro na mão de um jovem que, além de estar a prejudicar o seu corpo, é provável que nem saiba por que motivo faz isso.

Pergunto a mim mesma: como seria se no meu tempo já aqui estivesse o Ecopontas e o Papachicletes? Não quero saber, fui muito feliz sem eles!

Ana Costa

Queres conversar comigo?