ANA MARIA COSTA
Solta-se a folha
Tomba adormecida na terra que a acolhe
O tempo por ela passou
O mesmo tempo a levou a cair.
Por que cais tu?
Nasci e vivi com todo o meu esplendor
Agora, já não faço falta à árvore que me deu vida
Agora, dela me despeço
Para abraçar a terra
E nesta natural alquimia
Sei que vou voltar, um dia, a ser vida na árvore que me deu vida.
Quisera eu também
Saber soltar
Saber largar
Aquilo de que já não preciso.
Olho as árvores que se tingem de cores
Preparam alegres a festa de despedida
Convidam o vento para levar
As folhas coloridas pela vida
Vão-se as folhas
Ficam os ramos
Assim dita a natureza
Tudo passa
Fica o ser
Apenas
Na esperança de que
Tudo o que viveu, sentiu, pensou e disse
Também se vá
Porque já passou
E de ramos despidos
Se abra ao novo e renovado dia.
Solto as folhas secas
Deixo ir
Já não são aqui necessárias
E ao soltar
Compreendo
E aceito
Tudo o que vivi
Fez de mim quem eu sou.
Entrego ao vento
Entrego à terra
E integro o que aprendi.
Liberto-me
Sou
E isso é tudo.
Ana Costa