ANA MARIA COSTA
O Manel era um excelente funcionário, pontual, sempre sorridente e cumpridor das suas tarefas. Gostava de ter a secretária bem arrumada, com cada coisa no seu sítio e não percebia como alguns colegas conseguiam laborar no meio da confusão. Era um rapaz de hábitos e rotinas. Ia de bicicleta para o trabalho pelo trajeto mais curto. O caminho não era fácil, cheio de buracos e declives. Quando conseguiu emprego naqueles escritórios, o percurso tinha acabado de ser feito, estava impecável, mas, com o passar dos anos, foi-se deteriorando. O Manel nunca quis descobrir outra forma de chegar ao trabalho, e acabou por se habituar, embora o corpo já começasse a ressentir as irregularidades do caminho. Sempre fizera aquele percurso, sabia exatamente o que o esperava, aprendera mesmo a desviar-se com mestria de alguns percalços. Precisava de mais tempo para o trajeto, mas ajustou os horários e persistia. Por vezes, quando à noite sentia o corpo mais dorido, ainda se perguntava se haveria alternativa para logo se convencer de que aquela era a única opção e também a mais segura.
Certo dia, chegou uma funcionária nova. Jovial e divertida, com um gosto muito peculiar no traje, era uma brisa primaveril a invadir aqueles escritórios um tanto ou quanto invernosos. Para grande espanto do Manel, deixou de ser o único a chegar de bicicleta ao trabalho. Uma vez, encheu-se de coragem e seguiu-a quando saíram, descobrindo que viviam no mesmo bairro. Incrível! Nunca se cruzara com ela no caminho. Embora, tal como ele, fosse pontual, só se encontravam no portão da entrada, onde trocavam olhares envergonhados.
Tinha de saber por onde ela ia. Levantou-se de madrugada, decidido a esperá-la à saída de casa. O tempo passava, e ela não aparecia. Preparava-se já para desistir e acelerar para evitar o primeiro atraso em cinco anos, quando a viu, sorridente, a pedalar descontraída. Tentou segui-la sem ser visto, e não pôde deixar de admirar o caminho que ela lhe revelava: piso regular, ladeado pela frescura das árvores e pelos primeiros trinados das aves. Um caminho prazeroso, sem buracos nem declives.
Afinal, não chegou atrasado, e o olhar que trocou com a jovem tinha um novo brilho.
Ana Costa