ANA MARIA COSTA
Sou rosa em queda
Para um vazio que desconheço.
Revejo todos os toques e suspiros
Soltos, largados ao desvario uma e outra vez
E pergunto-me:
«Terá sido verdade tudo o que ouvi? Tudo o que senti e pelo qual soltei a mais amorosa fragância que algum dia poderias almejar?»
Sim, é verdade!
Lembro-me tão bem daquele dia em que ele me foi colher…
De entre tantas e tantas, foi a mim que ele escolheu.
A sua mão forte cortou-me num gesto certeiro
Esqueci a dor de ser assim arrancada de minha mãe
Tal foi o carinho com que aquela mão possante
Me colocou junto ao peito, por baixo da camisola,
Abraçada ao coração.
«PUM-PUM… PUM-PUM… PUM-PUM »
Acelera o ritmo
Encosto-me ainda mais
«PUM-PUM PUM-PUM PUM-PUM »
Aquela mesma mão, naquela hora tremente,
Refrescou-me com suor, antes de me entregar a ti.
E que luz saía dos teus olhos ardentes de amor
«É linda!» disseste
Enquanto aproximavas de mim o nariz
Penetrei em ti, percorri-te.
Os lábios adoçados
Trocaram beijos e palavras de amor.
Palavras novas para mim,
Mas que achei belas
Não sei se pelo que diziam
Se pelo aroma que deixavam no ar
Se pela música que embalava dois corações que se queriam.
Naquela noite, aprendi todas as palavras derivadas de amor
Treinei toda a conjugação do verbo amar
E nada eu sabia de gramática!
Senti-me também eu amor, senti-me também eu amada
E repetia baixinho «Amo-te, amo-te tanto! És a minha vida! És tudo para mim! Sem ti nada faz sentido! Sou feliz por acordar todos os dias ao teu lado!»
Talvez por isso as minhas pétalas demoraram a secar e estive fresca tanto tempo, dentro de uma pequena jarra na cabeceira da tua cama.
Talvez por isso me guardaste dentro da caixa onde sequei e ainda agora estaria se…
Como ficava feliz, sempre que pegavas em mim e suspiravas amor.
Eu acreditava que esse sentimento tinha entrado no teu coração e jamais de lá sairia
Eu acreditava que essas palavras trocadas entre beijos e abraços eram tão verdadeiras como eu, que ali estava, testemunha silenciosa de tanto amor.
Amor?
O que é realmente o amor?
Para onde foi ele?
Se há tanto tempo só ouço gritos, soluços e choro
Palavras negras e cortantes, disparadas como flechas.
Para onde foste tu, amor?
Para onde?
No momento em que abriste a caixa
Não estava a entender como podiam as tuas mãos magoar-me
Como puderam elas arrancar-me daquele abrigo que me protegia?
Como puderam elas atirar-me para o vazio?
Não sei como mudaste tanto…
Eu estive sempre contigo, sempre…
Dizias que eu era amor.
Estou em queda
E não me canso de perguntar:
«Onde está o amor?»
Usaste tu palavras tão lindas
Mas afinal ignoravas o seu significado
Vivi um engano…
Caio, entre cascas de fruta, papéis e outras coisas que desconheço.
Acho que estou no lixo.
Cheira mal
Cheira a podre.
Na queda, perdi muitas das minhas pétalas que estão espalhadas à minha volta.
Dói-me tudo o que resta de mim
O peso da caixa em que vivi tanto tempo esmaga-me.
Não percebo bem o que está a acontecer,
Parece que fui parar a um caixote do lixo ainda maior
Cheira cada vez pior
Pelo menos a caixa saiu de cima de mim…
Já poucas pétalas subsistem…
Olho ao meu redor
Tudo mexe
Ou serei eu que me movimento?
Uma força descomunal acaba com o que sou.
Ficou tudo escuro
Apagou-se a luz do amor?
Ana Costa